GONZAGUINHA – DA MAIOR LIBERDADE
Não sei se os originais eram assim ou foram recortados para o filme, mas na imensa maioria das cenas de arquivo em que aparece nesse documentário Luiz Gonzaga Jr. está em superclose. O rosto comprido cobre toda a tela, a oleosidade da pele rebrilha na luz, o bigode e o cavanhaque fazem cócegas na imagem. Às vezes vemos apenas uma parte do rosto.
Recebemos assim um Gonzaguinha em efígie, muito próximo, como se a enfiar suas contradições pelos nossos olhos e ouvidos a dentro. É quase uma autoanálise do garoto nascido no Morro de São Carlos, doado pela mãe cantora da noite aos padrinhos pobres para que o criassem longe do pai, Luiz Gonzaga. A crer no que nos diz Gonzaguinha – Da Maior Liberdade, ele passou a vida à procura de si mesmo, de gostar de si mesmo.
Daí que ele tinha de se explicar a todo momento sobre a imagem de um cara agressivo, rancoroso, antipático mesmo. Parecia difícil, até para ele próprio, puxar lá do fundo o Gonzaguinha terno e romântico que aparecia nas suas músicas.
O documentário de Susanna Lira, vencedor da categoria no recente Festival de Gramado, investe bastante nesse autorretrato um tanto conflagrado, quase sempre em primeiríssimo plano. Muito se tem dito como Susanna fugiu ao “modelo Wikipedia”, mas a autobiografia não está descartada. Lá estão a infância nas ruas, o carinho por Odaleia e a relação atravessada com Gonzagão, os pais biológicos. Passa-se pelo período universitário, a perseguição da censura, os relatórios do SNI e o reflexo dos eventos da ditadura sobre o artista engajado. O áudio de Gonzaguinha no show do Riocentro dando a notícia da explosão das bombas é uma peça histórica de alto valor. Para além de seu tempo, as músicas ressoam também sobre imagens de chacinas contemporâneas numa espécie de atualização da voz indignada de Gonzaguinha.
As canções – algumas ouvidas na íntegra – trazem a emoção entre grave e apaixonada da sua obra. Para complementar a autoanálise, o ator André Dale interpreta Gonzaguinha nas entrevistas que ele deu ao Pasquim em 1981 e 1990. Concordo com alguém que disse que o ator “está melhor que o Gonzaguinha” (risos).
À procura de agilidade e poesia, Susanna abusa um pouco de efeitos de montagem e de imagens ilustrativas, o que, a meu ver, ficou melhor no seu ensaio sobre Fernanda Young. Aqui, diante da sobriedade de Gonzaguinha, o filme parece chamar a atenção para si um pouco mais que o adequado.
Ainda assim, ficamos bem perto do “diabo” e do seu recado. Compreendemos um pouco mais a sua história breve, mas cheia de calor.
>> Gonzaguinha – Da Maior Liberdade está nos cinemas.




“o bigode e o cavanhaque fazem cócegas na imagem”. Impagável:)
Um beijo sem cócegas, querida.